Era conhecida sobretudo no sul do Mediterrâneo. Há alguns anos, outra carraça — muito maior do que a do bosque — avança no litoral do sul de França: Hyalomma marginatum. E com ela, um vírus até agora confinado a África, aos Balcãs e à Ásia Central: o da febre hemorrágica da Crimeia-Congo (FHCC). Se nenhum caso humano autóctone foi por enquanto declarado em França, a primeira deteção do vírus em carraças colhidas em bovinos dos Pirineus Orientais em outubro de 2023 (Santé publique France, 24 de outubro de 2023) muda o cenário. Eis o que diz a ciência, onde se situam as zonas de risco em 2026, e — sobretudo — como proteger-se antes de uma ida à praia, a cavalo ou pela garrigue.
Uma carraça que não se confunde com nenhuma outra
A Hyalomma marginatum não tem nada a ver com a carraça Ixodes ricinus que se encontra nas florestas e nas ervas altas. É uma carraça muito maior (adulta: 5 a 8 mm em jejum, até 2 cm depois de alimentada), listrada e rápida na corrida: persegue ativamente o seu hospedeiro durante vários metros, ao passo que a Ixodes espera, passivamente, que se lhe rocem.
Critérios de identificação, a reter:
- Patas nitidamente aneladas de claro e escuro (listras contrastadas), visíveis a olho nu.
- Corpo castanho-avermelhado, mais alongado do que o da Ixodes.
- Rostro (cabeça) longo e visível de cima, ao passo que é curto na Ixodes.
- Procura ativa do hospedeiro: por vezes vê-se a correr no chão ou nas paredes dos estábulos, coisa que nunca acontece com a carraça «clássica».
- Hospedeiros preferidos: grandes mamíferos — cavalos, bovinos, cervídeos, javalis — e, na falta deles, o homem.
Ao contrário da Ixodes, não se encontra no sub-bosque húmido: prefere os meios secos e abertos típicos do clima mediterrânico — garrigues, matos, pastagens, imediações de quintas, prados estépicos. A praia e os percursos pedestres costeiros fazem parte dos seus habitats preferidos.

Por que 2026 marca um ponto de viragem
Três elementos conjugam-se para explicar por que a ANSES, o CIRAD e a Santé publique France falam hoje de um «risco emergente a vigiar»:
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O vírus já está cá. A 6 de outubro de 2023, o Centro Nacional de Referência das Febres Hemorrágicas Virais (Institut Pasteur) confirmou a deteção do ARN do vírus da FHCC em carraças Hyalomma colhidas em bovinos dos Pirineus Orientais (Eurosurveillance, fevereiro de 2024). De cerca de 2 000 carraças analisadas, cerca de uma centena foram positivas. Nenhum caso humano autóctone foi declarado até agora, mas o vírus circula no ambiente.
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A área de presença expande-se. A Hyalomma marginatum estava historicamente confinada ao litoral mediterrânico (Pireneus Orientais, Aude, Hérault, Bouches-du-Rhône, Var) e à Córsega. É observada desde 2019 em Ardèche e Drôme (Santé publique France, boletim Auvergne-Rhône-Alpes, maio de 2026), e avança para o vale do Ródano. Os modelos climáticos do CIRAD projetam uma extensão até à costa atlântica até ao final da década.
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O contexto europeu agrava-se. 2024 viu o primeiro caso autóctone em Portugal, 2025 confirmou 3 casos em Espanha e 2 na Grécia. Em Espanha registam-se 1 a 3 casos autóctones por ano desde 2016. O limite norte da área da Hyalomma na Europa situa-se à volta do paralelo 50, que passa pelo norte de França — o que já não está fora de alcance no horizonte de 2030.
Para a França hexagonal, a avaliação do risco pela ANSES, publicada em junho de 2025, conclui que o risco de transmissão ao homem é hoje «fraco mas não negligenciável», e recomenda um reforço da vigilância ativa nos departamentos mediterrânicos e do Ródano.
A febre da Crimeia-Congo: uma doença que é preciso conhecer
A FHCC é uma doença viral transmitida principalmente pelas carraças Hyalomma. É endémica em mais de 30 países de África, dos Balcãs, do Médio Oriente e da Ásia Central. A OMS classifica-a entre os patogénios prioritários para a investigação e o desenvolvimento.
Como se transmite o vírus:
- Picada de carraça Hyalomma infetada: é a principal via de transmissão.
- Contacto direto com sangue ou tecidos de animais infetados: é a via de contaminação mais frequente nos profissionais (criadores, veterinários, pessoal de matadouro, caçadores).
- Transmissão inter-humana: possível, em meio de cuidados, por contacto com o sangue ou os fluidos de um doente infetado (daí a importância do isolamento).
- Sem transmissão por via alimentar na Europa, nem através de animais de companhia (salvo contacto direto com uma carraça infetada).
A evolução clínica em duas fases:
- Fase 1 (D1 a D5 após a picada): síndroma gripal súbita — febre elevada, arrepios, dores de cabeça, dores musculares, náuseas. O quadro é indistinguível de uma gripe ou de uma Covid. É aqui que o diagnóstico mais vezes falha.
- Fase 2 (D5 a D14, em 10 a 30 % dos casos): possível aparecimento de uma forma hemorrágica grave — hemorragias mucosas, equimoses, hemorragias digestivas, atingimento hepático e renal. Letalidade documentada: 5 a 30 % nas formas graves, segundo a OMS e o ECDC.
- Tratamento: sem antiviral específico validado em grande escala; tratamento sintomático em reanimação nas formas severas. A ribavirina é por vezes utilizada fora de indicação.
- Recuperação: lenta, várias semanas, com astenia marcada.
A taxa de letalidade é elevada, mas reflete os casos detetados. Na realidade, uma parte significativa das infeções é assintomática ou paucissintomática, como em muitas febres hemorrágicas — o que complica a vigilância.
Onde e quando se corre o risco de a encontrar em França
A maior parte da exposição concentra-se entre maio e setembro, com um pico em junho-julho (período de atividade das carraças adultas). As zonas de risco em 2026:
- Litoral mediterrânico: Pireneus Orientais, Aude, Hérault, Bouches-du-Rhône, Var, Alpes-Maritimes.
- Córsega: presença antiga, vigilância reforçada.
- Vale do Ródano: Ardèche, Drôme, sul de Vaucluse — progressão observada desde 2019.
- Provença interior: garrigues do Gard, Vaucluse e Luberon.
As situações de maior risco:
- Caminhadas na garrigue ou no mato (junho a agosto).
- Banhos em rio ou à beira-mar em zonas de pastoreio (as carraças escondem-se nas ervas altas nas proximidades).
- Equitação e passeios a cavalo em zonas de pecuária.
- Caça ao javali ou a caça grossa no sul.
- Trabalho agrícola ou pastoral, e visitas a explorações (bovinos, ovinos, equinos).
- Campismo selvagem ou bivaque em zonas secas e ervosas.
Nota: a bacia de Arcachon, as Corbières, a Camargue e a planície da Crau são zonas históricas de presença de Hyalomma e justificam uma vigilância especial neste verão.
Proteger-se: os bons reflexos
A prevenção assenta no mesmo tripé do que para as carraças comuns — roupa, repelente, inspeção — com duas particularidades: a carraça Hyalomma é mais rápida e maior, e privilegia os meios secos, o que altera ligeiramente os hábitos.
Antes da atividade no exterior:
- Usar roupa comprida e clara (vê-se melhor a carraça), sapatos fechados, calças enfiadas dentro das meias ou das botas.
- Aplicar um repelente cutâneo à base de DEET (30-50 %), icaridina (20-30 %) ou IR3535 nas zonas descobertas. Crianças e grávidas: respeitar as contraindicações.
- Tratar a roupa e o calçado com permetrina (spray para roupa, dura várias semanas). É o repelente mais eficaz contra a Hyalomma porque a carraça é «caçadora».
- Inspecionar o material (selas, mantas, cobertores) antes e depois de um passeio a cavalo.
- Afastar as zonas de bivaque e piquenique das pastagens e dos pontos de água frequentados pelo gado.
Durante a atividade:
- Permanecer nos trilhos limpos, evitar as ervas altas na garrigue e as bermas lamacentas dos caminhos.
- Inspecionar regularmente o corpo e a roupa — a cada 2 a 3 horas — porque a Hyalomma pode trepar rapidamente e fixar-se em poucos minutos.
No regresso:
- Inspecionar todo o corpo em duas horas, incluindo as pregas cutâneas, o couro cabeludo, atrás das orelhas, a nuca, a virilha, a parte posterior dos joelhos.
- Inspecionar também os animais (cães, cavalos) com uma luva: a Hyalomma vê-se bem a olho nu pelo seu tamanho e pelas patas listradas.
- Tomar duche rapidamente para soltar as carraças que ainda não se fixaram.
- Vigiar durante 14 dias os sintomas gripais: febre súbita, arrepios, dores musculares intensas, dor de cabeça. Em caso de febre nos 14 dias seguintes a uma picada ou a uma exposição de risco, consultar com urgência e mencionar a viagem e a atividade em zona mediterrânica.
O que fazer em caso de picada
O protocolo é idêntico ao de uma picada de Ixodes, mas com vigilância reforçada sobre a cronologia dos sintomas gripais.
- Retirar a carraça imediatamente com um tira-carraças (vendido em farmácias), segurando o animal o mais perto possível da pele e puxando suavemente para cima, sem rotação nem torção. Pinças de depilar, pinças de sobrancelhas, éter, óleo são proibidos: provocam a regurgitação da carraça e aumentam o risco de transmissão.
- Desinfetar a zona com um antissético.
- Conservar a carraça se possível (num frasco hermético, no congelador): a sua identificação pelo CIRAD ou pelo INRAE pode orientar a vigilância.
- Fotografar a carraça e a picada (com uma moeda para escala): é útil para o médico para a rastreabilidade.
- Sinalizar a picada na aplicação «Signalement TIQUE» da CiTIQUE (citique.fr) ou através de signalement-tique.fr.
- Consultar com urgência em caso de febre superior a 38,5 °C, arrepios, dor de cabeça intensa, dores musculares ou erupção cutânea nos 14 dias seguintes à picada. Mencionar a atividade em zona mediterrânica e a possível picada de Hyalomma.
- Ligar para o 15 (SAMU) ou para o Centro Antivenenos (número: 0 805 50 00 80) em caso de qualquer sinal hemorrágico (sangramento do nariz, sangramento das gengivas, equimoses espontâneas).
⚠️ O que NÃO fazer: aplicar álcool, vinagre, óleo essencial, pasta de dentes, ou tentar «queimar» a carraça. Estas práticas provocam a regurgitação e aumentam a carga viral inoculada.
Quando recorrer a um profissional
Para os criadores, os centros equestres, os campos de golfe, os parques de campismo, as bases de lazer e os terrenos abertos ao público no sul de França, um tratamento acaricida profissional pode ser pertinente:
- Diagnóstico de presença por arrasto de bandeira e identificação visual das carraças Hyalomma (o tamanho e as patas listradas facilitam a identificação).
- Tratamento direcionado das zonas de refúgio (ervas altas, bordos de pastagens, orlas de bosque) com biocidas homologados aplicados por um operador Certibiocide, no respeito da regulamentação sobre produtos TP18 — acaricidas.
- Acondicionamentos paisagísticos (limpeza, gestão de ervas altas, drenagem de pontos de água estagnada) para reduzir a densidade de hospedeiros intermediários (roedores, pequenos mamíferos).
- Sensibilização dos públicos expostos: pessoal agrícola, cavaleiros, caminhantes, caçadores, crianças de centros de lazer.
A intervenção faz-se em duas passagens: um diagnóstico e depois um tratamento nas zonas confirmadas positivas, com um prazo de segurança a respeitar antes do regresso do público.
Resumo: o que é preciso reter
A Hyalomma marginatum é uma carraça grande, listrada e rápida que se encontra no sul mediterrânico de França. Se nenhum caso humano autóctone de febre hemorrágica da Crimeia-Congo foi ainda declarado em França, o vírus foi detetado em carraças colhidas em bovinos dos Pireneus Orientais em 2023, e a carraça estende a sua área para o vale do Ródano. O risco é hoje fraco mas real — tanto mais que o sul da Europa regista já vários casos autóctones por ano (Espanha, Grécia, Portugal em 2024-2025).
Os bons reflexos a integrar em qualquer saída pela garrigue, a cavalo, à caça ou perto de pastagens neste verão:
- Roupa comprida e clara + repelente DEET/icaridina + roupa tratada com permetrina.
- Inspeção do corpo e da roupa a cada 2-3 horas, e nas 2 horas seguintes ao regresso.
- Tira-carraças + antissético em caso de picada, sem éter nem óleo.
- Consulta urgente perante qualquer febre > 38,5 °C nos 14 dias seguintes a uma picada ou exposição de risco, mencionando a zona mediterrânica.
- Vigilância veterinária dos cavalos e dos cães (antiparasitário externo adequado, inspeção após cada saída).
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Em resumo — A carraça Hyalomma marginatum, vetora do vírus da febre hemorrágica da Crimeia-Congo, está agora implantada no sul mediterrânico de França e avança para o vale do Ródano. O vírus foi detetado em carraças em 2023, e o sul da Europa regista os seus primeiros casos autóctones. O risco para o homem continua fraco mas real. A prevenção assenta na roupa cobrinte, no repelente, na inspeção regular e na consulta urgente em caso de febre nos 14 dias seguintes a uma exposição de risco.
Fontes: Santé publique France (boletim regional Auvergne-Rhône-Alpes, 5 de maio de 2026; comunicado de 24 de outubro de 2023), ANSES (parecer 2024 e roteiro 2025-2030), CIRAD (comunicado de 25 de outubro de 2023), Eurosurveillance (Bernard C. et al., 8 de fevereiro de 2024), ECDC, OMS.



